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Segunda, 22 Janeiro 2018 19:47

Há um caminho além do farisaísmo e do jujubismo

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Em nossas comunidades de fé e também na internet, duas correntes distintas e contrárias dentro da Igreja fazem bastante barulho: o farisaísmo e o jujubismo.

O FARISAÍSMO

Ser fariseu, quase todo o mundo sabe o que é: interpretar e aplicar a lei de Deus e as normas da Igreja de forma engessada; somar à lei de Deus preceitos humanos e subjetivos, deixando-a mais difícil de ser seguida; medir os pecados alheios sem, antes, considerar a dimensão dos próprios pecados.

Em seu rigor hipócrita, os fariseus acabam fechando a porta dos Céus para muita gente, pois não entendem aquilo que São João Paulo II chamava de “lei da gradualidade”:

...ciente de que o ser humano «conhece, ama e cumpre o bem moral segundo diversas etapas de crescimento». Não é uma «gradualidade da lei», mas uma gradualidade no exercício prudencial dos atos livres em sujeitos que não estão em condições de compreender, apreciar ou praticar plenamente as exigências objetivas da lei. Com efeito, também a lei é dom de Deus, que indica o caminho; um dom para todos sem exceção, que se pode viver com a força da graça, embora cada ser humano «avance gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus e das exigências do seu amor definitivo e absoluto em toda a vida pessoal e social».

- Amoris Laetitia, ponto 295

Em outras palavras: não se deve esperar que todos tenham a capacidade de abraçar doutrina de Cristo de forma imediata e integral. Algumas pessoas dão passos pequenos e graduais de conversão, e precisam de nosso amor, compreensão e paciência – sem jamais deixar de conduzi-las ao ideal.

Um exemplo de farisaísmo: quando a filha da apresentadora de TV Eliana nasceu, ela entregou a touquinha dela ao santuário de N. Sra. Aparecida. Noticiamos esse ato de gratidão em nossa fanpage. Pularam vários comentários venenosos criticando a apresentadora, que seria protestante, que teria praticado esse e aquele outro pecado... Deixa eu ver se entendi: então só os católicos que estão em estado de graça podem demonstrar devoção à Virgem? Seria preferível que Eliana fosse totalmente indiferente à Mãe de Deus, então?

Acordem! Jesus elogiou o samaritano que foi misericordioso com o homem ferido na estrada – isso apesar do samaritano ser seguidor de um judaísmo herético, deturpado (o bom samaritano, hoje, em relação aos católicos, seria tipo um... bom "evangélico"). 

Talvez a melhor reflexão sobre o farisaísmo que já li até hoje tenha sido essa:

"Você comete os pecados que te tentam, e eu os que me tentam. E todos nos sentimos virtuosos por não cometer os pecados dos outros, quando não há virtude alguma em não cometer pecados que não nos tentam ou não temos pré-disposição."

- Frank Sheed. “Society and Sanity”

A cura para o farisaísmo inclui repetir em voz alta esse ensinamento de Bento XVI, umas mil vezes: “o cristianismo não é uma nova filosofia ou uma nova moral” (Audiência Geral de 3 de setembro de 2008). O cristianismo propõe uma moral, mas ele é muito mais do que um mero código de conduta.

O JUJUBISMO

O jujubismo é o modo de pensar do católico-jujuba. Esse termo fomos nós de O Catequista quem criamos, e acabou pegando no Brasil inteiro. Designa os católicos que pregam um cristianismo docinho, mas que não tem sustança (como uma jujuba).

Os católicos-jujuba pregam a misericórdia desprovida da verdade evangélica. Relativizam e pervertem a doutrina em nome de não desagradar nem ofender ninguém, e assim conduzem muitos para o caminho da perdição. Acham que as regras disciplinares da Igreja são bobagens, que podem ser dispensadas por qualquer motivo.

No Evangelho do católico-jujuba, parece que Cristo só veio pregar duas mensagens: “não julgueis” e “o importante é u amô”. O Catecismo do jujuba é a cartilha mundana do politicamente correto, não a doutrina que recebemos dos Apóstolos.

Podemos resumir o católico-jujuba em uma só imagem:

DALTONISMO BÍBLICO SELETIVO

Fariseus e jujubas se alfinetam e se desprezam mutuamente, mas são farinha do mesmo saco. Seu erro, no fundo, é o mesmo: pinçar e realçar do Evangelho somente os trechos que corroboram com seu ponto de vista e temperamento, e desconsiderar ou dar menor peso às passagens que condenam seu modo de pensar e agir.

Ambos esses grupos sofrem de um daltonismo bíblico seletivo. Quando o fariseu lê a Bíblia, ele não consegue enxergar esses trechos:

Não julgueis, e não sereis julgados. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos. Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão. (Mt 7, 1-5)

Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la? (Lc 15, 4)

Encolerizou-se ele e não queria entrar, mas seu pai saiu e insistiu com ele. Ele, então, respondeu ao pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos. E agora, que voltou este teu filho, que gastou os teus bens com as meretrizes, logo lhe mandaste matar um novilho gordo! Explicou-lhe o pai: Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Convinha, porém, fazermos festa, pois este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado. (Lc 15, 28-32)

Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra. (Jo 8, 7)

Os fariseus dão chilique toda a vez em que alguma norma da Igreja é flexibilizada, ainda que seja por um motivo pastoral justo. Ignoram que Jesus também quebrou uma norma imposta por Ele mesmo: não pregar nem fazer milagres, em sua etapa inicial de missão, a ninguém que não fosse judeu. Veio junto a Ele uma mulher cananeia, a quem Ele inicialmente Ele enxotou ("Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos" – Mt 15, 26). Comovido, porém, sua grande fé, cedeu e realizou o milagre que ela pedia.

Por sua vez, quando o católico-jujuba lê a Bíblia, ele não consegue enxergar essas passagens:

Se eu disser ao pecador que ele deve morrer, e tu não o avisares para pô-lo de guarda contra seu proceder nefasto, ele perecerá por causa de seu pecado, mas a ti pedirei conta do seu sangue. (Ez 33,8).

Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida, e são poucos os que o encontram! (Mt 7, 13-14)

E, se ele não os atender, dize-o à Igreja; e, se recusar ouvir também a Igreja, considera-o como pagão e publicano. (Mt 18,17)

Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a justiça. (João 7,24)

No momento em que é aplicada, qualquer correção parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza; porém, mais tarde, produz um fruto de paz e de justiça naqueles que foram corrigidos. (Heb 12,11)

Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus. (I Cor 6, 9-10)

Todos nós, em diversos momentos, talvez tenhamos cedido à tentação de ser católicos-jujubas ou fariseus. O caminho para nos libertamos dessa cegueira espiritual é amar e meditar sobre o Evangelho em sua integralidade. Ler os escritos dos santos ajuda muito também!

920 Segunda, 22 Janeiro 2018 23:41

Comentários   

# Augusto Paiva 25-01-2018 02:18
Eis também um artigo interessante:

http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/igreja-catolica/907-a-sor-lucia-caram-e-preferivel-ser-um-ortodoxo-hipocrita-do-que-um-heterodoxo-sincero
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# Tatiana B Moraes 24-01-2018 11:19
Excelente. Sugiro que vocês façam uma matéria sobre os fiéis que se julgam donos da Igreja, do Padre e da doutrina, detentores da propriedade privada de Deus, da Nossa Senhora, de Jesus Cristo e todos os Santos. Se vocês derem uma pesquisada vão ver que eles são mais numerosos do que a gente imaginava.
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# Roberto Moisés Senra 27-01-2018 14:33
Boa sugestão.
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+1 # Geraldo 24-01-2018 00:35
O bom professor sabe onde todos os estudantes DEVEM chegar. Mas conhece o estágio e o ritmo em que se acha cada um. Sem jamais mitigar ou negar aquilo que TODOS devem fazer para chegar lá, ele estimula cada passo dado e se torna especialmente próximo dos frágeis mas humildemente empenhados, não obstante toda uma história de traições e fracassos: - " sim, Senhor, sabeis que vos amo!" .

O que Jesus não aceita é a postura negligente, paralisada, não empenhada, do cara da parábola que enterrou os talentos. Quando buscamos viver o que Ele pede e damos passos na direção dEle, Ele abençoa nosso esforço e nos sustenta com sua graça. Nosso mestre maior da Teologia Moral, Sto. Afonso, dizia: "há viciados compulsivos que - nesse processo de queda e erguimento contínuos - chegam a se santificar." E aqui se revela o centro da Boa Nova: não mostramos ao mundo o quão limpos somos, mas apontamos com alegria humilde: olha aqui a fonte onde temos sido lavados!!
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+1 # Victor Antonio Valdo 23-01-2018 13:07
Bem sabemos que existe sim muita diferença no modo de agir dos cristãos. O artigo aparece marcado com não julgar, não julgueis, e fariseu, e é sobre este que quero deixar meu comentário, a Declaração Nostra Aetate em seu preâmbulo afirma "embora a Igreja seja o novo povo de Deus, os Judeus, no entanto, não devem ser apresentados nem como condenados por Deus, nem como amaldiçoados em decorrência das Sagradas Escrituras... lamenta os ódios, as perseguições, as manifestações anti-semíticas, em qualquer tempo e por qualquer pessoa dirigida contra os Judeus", e nas Notas para uma correta apresentação dos judeus: "o Papa João Paulo II dizia ser necessário conseguir em todos os níveis de catequese apresentar os Judeus e o Judaísmo de maneira honesta, sem preconceitos e ofensas, sobretudo com viva consciência da herança comum a Judeus e Cristãos". Fica a sugestão de leitura: Nostra Aetate, Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs. !חסד ושלום
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0 # João Pedro Strabelli 27-01-2018 01:19
Penso assim: nós, católicos, seguimos Jesus. Ele, Jesus, disse que não veio alterar a lei, mas aperfeiçoar. Portanto, todo judeu que segue a lei… segue a lei. Na visão deles, a lei atual; na nossa, a lei antes de ser aperfeiçoada mas não mudada por Jesus. Então se dizer cristão e ficar falando mal dos judeus não dá, é no um contrassenso.
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+1 # Letícia 24-01-2018 13:05
Se eu entendi bem o que você quis dizer, posso ter me equivocado, é que o artigo desrespeita os judeus por se apresentar antifarisaico.

Ocorre que os fariseus criaram uma seita no judaísmo, foram os mesmos que crucificaram o Senhor e os mesmos que rasgaram muitos livros das sagradas escrituras. Logo, o que foi dito não faz o menor sentido.
Devemos lembrar que o antissemitismo é pecado, mas o sionismo também.
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# Antônio 25-01-2018 12:05
Prezada Letícia, concordo com a sua opinião acerca do farisaísmo e não acredito que o artigo tenha desrespeitado os judeus, o que seria de fato lamentável. No entanto, fiquei com uma dúvida séria: de onde você obteve a informação de que sionismo é pecado??
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+1 # João Pedro Strabelli 23-01-2018 13:03
Os jujubas também são retratados na Bíblia: os saduceus, que desprezavam alguns dogmas. Como penso que a Bíblia retratou bem os problemas que íamos enfrentar vida afora, lá vai: dentro da Igreja, conservadores e liberais, pelo menos os ultra, costumam se alinhar com estas duas correntes aí (podem criticar à vontade).

Mas existe um desdobramento disso que esculhamba demais e a gente acaba deixando passar batido: usar a Igreja ou Jesus para justificar um candidato. Lembra o brigueiro que passamos nas eleições em 2014? Ninguém prestava, nenhum deles tinha uma pauta verdadeira cristã e vai lá falar isso. Na verdade tem muita gente que tem primeiro uma escolha política e depois, muito depois, usa Cristo para justificar isso. O cara ou é de direita (fariseu) ou é de esquerda (saduceu) e diz que segue Jesus desde que O encaixe numa dessas duas vertentes.
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# Diego Leite 23-01-2018 12:39
Excelente reflexão. Parabéns! A propósito, eu ainda não tinha ouvido falar no termo "jujuba" com esse contexto. =)
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-1 # Sidnei 23-01-2018 10:20
Continua

Emfim, há casos e casos que demonstram que nem tudo deve ser preto no branco, porém, há outros lá que insistem em dizer que estas regras são estúpidas, imbecis, que é por isto que a Igreja Católica está perdendo fieis, e que outros já foram para igreja protestantes, ou estas pessoas gostam de viver na ignorância, ou elas se dizem católicas, mas vivem como se não fossem, ou só querem atrapalhar mesmo.

Estas só orando a DEUS mesmo para que se convertam, porque se depender dessa gente, a Missa vira um bailão sertanejo ou uma roda de samba.
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+1 # Sidnei 23-01-2018 10:16
Isto me lembrou de uma matéria no Aleteia, sobre: Coisas que você não deve fazer na Missa e talvez não saiba https://pt.aleteia.org/2018/01/16/coisas-que-voce-nao-deve-fazer-na-missa-e-talvez-nao-saiba/

Nos comentários verifiquei estas duas vertentes, gente que quer liberar geral e gente que não aceita flexibilização nenhuma.

Para que uma Missa seja feita com ordem e decência deve haver regras, mas isto são regras, e não os mandamentos da Lei de DEUS, que quem descumpri-la estará em risco de perder a Vida Eterna.

Pode ser que pessoas que não obedecem estas regras, não as obedecem, por não conhece-las, ou se conhece-las, pode ser que há circunstâncias que ela não possa cumpri-la, como se ajoelhar na hora da consagração, se ela tem um problema no joelho, e não pode joelhar, ela não estará condenada por causa disto.

Continua
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# André Bohn 23-01-2018 09:17
Excelente post, nos tempos de hoje que todo mundo anda atirando pedras no nosso Papa, é importante levantar essa questão. Em João no mesmo capitulo, tem mais uma parte que ser para jujubas e fariseus.

'Quando Jesus se ergueu, não vendo a ninguém mais, além da mulher, disse a ela: “Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?” Disse ela: “Ninguém, Senhor.” E assim lhe disse Jesus: “NEM EU TE CONDENO (fariseus); podes ir e NÃO PEQUES MAIS (jujubas).” Jesus defende seu testemunho.' (Jo 8, 10-11)

Parabéns e Obrigado !!
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