Publicidade
Quarta, 10 Janeiro 2018 19:04

Por que Jesus dizia ser "Filho do Homem"?

Postado por

Sabemos que Jesus referiu-se a si mesmo, numerosas vezes, como "Filho do Homem". E pra que? Pra dizer que era filho biológico de um homem, São José? Ora, isso era algo que o povo já achava (não sabiam que Ele era, na verdade, Filho de Deus). Que sentido teria ficar repetindo isso, se não fosse pra indicar algo diferente do que todos pensavam?

Na verdade, ao dizer-se Filho do Homem, Jesus estava comunicando uma novidade: a sua natureza divina e humana. Ele é Deus e homem.

Em uma de suas visões, o profeta Daniel descreve “Alguém como um filho de homem”, um ser divino e, ao mesmo tempo, humano.

“Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu vinha Alguém como um filho de homem. Chegou até perto do Ancião e foi levado à sua presença. Foi-Lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca Lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído.” (Dn 7,13-14)

Atributos divinos – veio do Céu; recebeu do Ancião (Deus Pai) poder eterno, glória e reino; todos os povos o servem (devemos servir, no sentido de adorar, só a Deus).

Atributos humanos – sendo de natureza divina, Ele se formou no seio de uma mulher e tem forma e natureza humanas; é como “um filho de homem”.

Toda a vez que Jesus se dizia Filho do Homem, ele remetia os judeus a essa profecia de Daniel. Era como se dissesse: “Vocês lembram do cara de quem Daniel falou? Esse cara sou eu!”.

Nos primeiros séculos da cristandade, surgiu uma heresia, chamada monofisismo. Seus seguidores - entre eles muitos padre e bispos - afirmavam que Jesus tinha somente a natureza divina, e que não era verdadeiro homem. Assim, sua condição de homem seria apenas uma aparência. A natureza humana de Jesus não seria como a nossa; Ele seria como uma espécie de fantasma materializado. 

Para destroçar essa heresia, foi convocado o  Concílio de Calcedônia (ano 451). Nessa reunião de bispos, o Papa São Leão Magno expôs de forma brilhante a doutrina das duas naturezas de Cristo. Esse texto é muito esclarecedor, pois explica como se pode conciliar o fato de que Jesus disse "o Pai é maior do que eu", e também tenha dito algo que parece contradizer isso: "Quem viu a mim, viu o Pai". Confira um trecho:

Quem na natureza de Deus criou o homem, fez-se homem na condição de servo. Cada uma das duas naturezas conservou sem alteração de suas propriedades. Como a natureza de Deus não eliminou a natureza de servo, assim a natureza de servo não diminuiu a natureza de Deus. (...)

Desce, portanto, do reino celeste às íntimas regiões deste mundo Jesus Cristo, Filho de Deus, sem se afastar da glória paterna, gerado em ordem nova, em novo nascimento. Nova ordem, porque invisível no que lhe é próprio, fez-se visível no que é nosso; incompreensível quis ser apreendido; sendo antes do tempo, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assumiu a condição de servo, velando a imensidade de sua majestade. Dignou-se o Deus impassível tornar-se homem passível e o imortal submeter´se à lei da morte. Vem à luz por novo nascimento, porque a virgindade inviolada, que ignorava a concupiscência, ministrou-lhe a matéria corporal. Recebeu o Senhor de sua mãe a natureza, mas isenta de culpa.

A natureza humana de nosso Senhor Jesus Cristo, nascido do seio da Virgem, não difere da nossa por ter tido ele admirável natividade. Sendo verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem. Nesta unidade não há mentira, pois mutuamente se coadunam humildade humana e grandeza divina. Como Deus não se altera por tal misericórdia, o homem não desaparece, absorvido pela dignidade divina. Age cada uma das naturezas em consonância com a outra, quando a ação é peculiar a uma delas. O Verbo opera o que lhe é próprio, e a carne executa o que lhe compete. Uma resplandece pelos milagres, enquanto a outra é sujeita aos opróbrios. (...)

Ter fome, ter sede, estar cansado e dormir evidentemente é humano. Mas, saciar com cinco pães cinco mil homens (Jo 6, 12) e dar à samaritana a água viva (Jo 4, 10), que não deixa mais ter sede quem a beber, andar sobre as ondas do mar a pé enxuto (Mt 14,25) e acalmar o furor dos vagalhões, falando imperiosamente à tempestade (Lc 8, 24) é indubitavelmente divino. (...)

Do mesmo modo não provém da mesma natureza dizer: “Eu e o Pai somos uma só coisa” (Jo 10,30) e afirmar: “O Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28). Embora seja nosso Senhor Jesus Cristo uma só Pessoa, Deus e homem, difere contudo a proveniência para as duas naturezas do opróbrio comum a ambas e da glória comum. Pelo que recebeu de nós, a humanidade, ele é menor do que o Pai; do Pai lhe vem a igualdade com o Pai, a divindade.

- Sermões de Leão Magno. Carta a Flaviano

.....

Segue a gente nos Instagram: @ocatequistaoficial

1337 Sexta, 12 Janeiro 2018 16:56

Comentários   

+1 # Stéphanie 15-01-2018 12:07
Belíssimo post! Obrigada.
Aguardo o Geraldo com seus comentários magníficos!
Responder | Responder com citação | Citar
# Sidnei 13-01-2018 00:27
Novamente, boa matéria e uma ótima explicação.

Há grupos protestantes por aí dizendo que JESUS era DEUS antes de se encarnar no seio da Virgem Maria, porém, enquanto esteve neste mundo foi somente homem e depois quando voltou para o céu, voltou a ser DEUS deixando de ser homem. Eles se baseiam isto fazendo um interpretação torta de Filipenses 2, 6-11, como se DEUS pode deixar de ser DEUS, mesmo que por 33 anos, se fazendo apenas homem e depois deixa de ser homem para voltar a ser DEUS novamente.

Não sei no em que heresia isto pode ser encaixado ou se isto é uma nova modalidade de heresia, mas fico pasmo como cada vez mais, devido a livre interpretação da Bíblia, há protestantes que se afastam cada vez mais, da fé genuína e verdadeiramente cristã.
Responder | Responder com citação | Citar

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Publicidade
Publicidade