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Domingo, 15 Abril 2018 22:15

Calvino, o "papa" arbitrário de Genebra

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No nosso post anterior sobre João Calvino, afirmamos que ele não era um real defensor da liberdade de interpretação das escrituras e da Bíblia como única autoridade de fé (Sola Scriptura). Hoje vamos explicar porque.

A loucura protestante já havia se espalhado para todo o lado, e um dos tópicos mais controversos para os cristãos separados sempre foi a Eucaristia. Ao contrário do que muita gente pensa, Calvino era um ferrenho defensor da Eucaristia.

Mas o problema aqui, mais uma vez, era a forma como ele se comunicava. Autoritário como ele só, uma de suas maiores frustrações era a divergências nas (já) várias correntes protestantes a respeito da Eucaristia. Só que, como mostra São Felipe Néri: “não se junta as penas de uma galinha que foi depenada ao vento”.

Calvino também queria manter o batismo como ensinado pela Sã Doutrina (admitindo o batismo de bebês e crianças). Isso o transformou num perseguidor implacável dos anabatistas de Genebra, que afirmavam que só adultos poderiam ser batizados.

Mas não se enganem: pode parecer com a doutrina dos sacramentos católicos, mas são sutilmente diferentes. Por exemplo, Calvino defendia a presença real de Cristo na Eucaristia, negando que fosse algo meramente simbólico. Mas isso estava bem longe do ensinamento católico sobre a transubstanciação. Segundo Calvino, a presença de Cristo no pão e no vinho e não modificava a substância desses elementos, que continuavam a ser meramente pão e vinho.

Tudo que Calvino fazia era visando seu projeto de poder, consolidado através de uma igreja reformada forte, que também continha em si as diretrizes de Estado.

O reformador francesinho tinha uma consciência plena de que Sola Scriptura é receita para o desastre, pela sua simples fluidez: a doutrina muda conforme a interpretação que cada um faz da Bíblia. A coisa era completamente esquizofrênica, uma esquizofrenia que vem quicando através do tempo até os dias de hoje.

Pensem comigo: a teologia calvinista é a base do puritanismo, do moderno pentecostalismo; Calvino era arbitrário e irracional, apelando para a própria subjetividade quando era desafiado pelos outros ou pela realidade. Mas com que autoridade ele negava aos outros, como Bolsec, que fizessem a mesma coisa? Não parece muito com o pensamento incoerente moderno?

Comparem o que eu escrevi com a atitude dos santos católicos ligados à teologia. São Tomás, Santo Agostinho, Santa Teresa D'Ávila, São Carlos Borromeo, São Francisco de Sales, São Felipe Néri. Todos eles grandes teólogos, todos eles submissos e bondosos. Nenhum jamais OUSOU DESAFIAR A AUTORIDADE DE UM PAPA ou de um Concílio.

Olhem as origens da teologia protestante. Um sujeito que excomungava porque ele estava a fim e pronto. Por essas e outras que eu digo que não há discussão possível, pelo simples fato de que não são categorias iguais. A autoridade da teologia de São Tomás vem dos estudos que foram feitos a respeito da mesma. O Doutor Angélico jamais diria “é assim porque eu quero” (Lutero) ou “é assim porque senão eu te excomungo” (Calvino). Santa Hildegarda é, fácil, fácil, a mulher mais brilhante que já viveu e nunca quis exaltar-se sobre os demais por conta disso.

Tudo isso por conta da coisa que Calvino mais desprezava no catolicismo e o que ele tinha mais ânsia de destruir e substituir... Aquilo que torna a Igreja invencível e foi instituído por Nosso Senhor... O Magistério da Igreja! É por meio do Magistério que a Igreja separa o joio do trigo, o essencial do não-essencial. Olha que troca mais lindja! Trocar o Magistério por… Calvino. Alguém em Genebra achou que era uma boa ideia. Mas deu no que deu.

Hoje os protestantes, em grande parte, creem que tanto faz a denominação à qual pertençam (contanto que não seja a "idólatra" Igreja Católica), que já estão salvos. O importante é ser "evangélico". Mas para Calvino, fora da Igreja por ele liderada e "reformada" não havia salvação, nem mesmo para os demais protestantes. Foi isso que ele afirmou sobre Herman, um ex-anabatista:

“Herman retornou, se não estou enganado, de boa fé à amizade da Igreja. Ele confessou que fora da Igreja não há salvação, e que a verdadeira Igreja está conosco. Consequentemente, ele era um desertor enquanto permaneceu numa seita separada da Igreja.” (Cartas de João Calvino)

Fora de Genebra, o calvinismo original não teve vez sem a mão forte do seu líder, e começou a se fragmentar – como o faz toda boa corrente protestante – e a se transformar. Hoje, o calvinismo se assemelha não mais a uma tela de um artista reconhecível, mas sim a um mosaico estranho feito de milhares de pedaços distintos. Ainda assim, deu (e dá) muito trabalho. Veremos isso no próximo post.

Fiquem com Deus e com a Virgem Maria.

FONTES:

Belloc, Hillarie. As Grandes Heresias. Ed. Permanência, 2009.

The Consistory of Geneva, 1559-1569, Bibliothèque d'humanisme et Renaissance 38, 1976.

Called to Communion, How John Calvin Made me a Catholic, disponível em www.calledtocomunnion.com/, acessado em 02/02/2017.

Letters of John Calvin, trans. M. Gilchrist, ed. J.Bonnet, New York: Burt Franklin, 1972

909 Segunda, 16 Abril 2018 13:56

Comentários   

# Augusto Paiva 17-04-2018 01:02
"Pensem comigo: a teologia calvinista é a base do puritanismo, do moderno pentecostalismo."

RESPOSTA: É-o não só pela maldita iconoclastia. Os calvinistas puritanos, muito antes dos pentecostais, viam a riqueza como um sinal da predestinação divina. A Teologia da Pro$peridade, hoje criticada pelos deformados, é filha desse conceito errôneo. Jesus, porém, nunca disse isso: "Então ele ergueu os olhos para os seus discípulos e disse: Bem-aventurados vós que sois ricos, porque a riqueza é um sinal de predestinação e eleição de Deus!'' (cf. Lc 6,20) Esses protestantes são materialistas. Inclusive, gabam-se falsamente que os países protestantes seriam mais ricos e os países católicos miseráveis. Jesus disse, advertindo contra a avareza, que a vida de um homem, ainda que ele esteja na abundância, não depende de suas riquezas (Lc 12,15). As inúmeras seitas protestantes não resistem ao escrutínio bíblico, patrístico e histórico. O protestantismo é anti-bíblico! SALVE ROMA!
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# Everton Caiçara PB 19-04-2018 16:18
SALVE ROMA!!!
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# Pepita di Capri 16-04-2018 18:39
Prezados: adorei o post! Seria possível falarem mais sobre Santa Hildegarda? Pesquisei um pouquinho e estou impressionada com o exemplo de vida e a obra magistral desta mulher, expoente das luzes do medievo!! Grata!
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0 # Everton Caiçara PB 16-04-2018 13:01
Que texto ma-ra-vi-lho-so! Fico a indagar: Mesmo Calvino odiando a Santa Igreja Romana, será que todo o sistema criado por ele tinha como "inspiração" a marvada Igreja Católica?! Porque para afirmar isso:

“Herman retornou, se não estou enganado, de boa fé à amizade da Igreja. Ele confessou que fora da Igreja não há salvação, e que a verdadeira Igreja está conosco. Consequentemente, ele era um desertor enquanto permaneceu numa seita separada da Igreja.”

Realmente ele nutria "um amor secreto" pelo papismo... rsrsrs
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0 # Sidnei 16-04-2018 11:09
"Calvino também queria manter o batismo como ensinado pela Sã Doutrina (admitindo o batismo de bebês e crianças)"

Me venho uma dúvida, batizar crianças na Igreja Católica é obrigatório ou recomendado. Se os pais das crianças quiserem que elas sejam batizadas quando atingir a idade da razão isto pelos 14 anos de idade, ou, quando adultas, os pais católicos poderão fazer ou estarão obrigados, por causa de a criança ter nascido com manja do pecado original, batizar a criança o mais rápido possível. Isto é uma recomendação da Igreja ou uma obrigação que os pais terão que cumprir em batizar as crianças recém nascidas?.
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+1 # Paulo Ricardo Costa 17-04-2018 00:48
Paz e bem amigo,

O batizado de infantes é consequência da Teologia de Santo Agostinho. Mais precisamente sobre o pecado original. Ele pode te falar melhor a respeito disto que eu.
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0 # Sidnei 18-04-2018 10:54
Obrigado Paulo Ricardo, pela dica, mas já sabia que o batismo das crianças derivava pelo fato de todos nós terem nascidos com a mancha do pecado original, doutrina esta fortemente influenciada pela teologia de Santo Agostinho sobre este tema. Porém, minha dúvida ainda persisti, o batismo das crianças pela Igreja é obrigatório ou optativo, a Igreja obriga os pais das crianças a batizarem elas quando bebês ou os pais tem a opção de preferir que seus filhos cheguem a idade da razão para serem batizadas.
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# Danilo Martins 19-04-2018 01:21
Caro Sidnei, permita-me interferir em seu diálogo com nosso querido Paulo Ricardo e colocar uma questão que se revela anterior à dúvida de se devemos batizar crianças ou não.
Ao colocar esta premissa, os evangélicos terminam por negar (como de fato, o fazem) a força que os Sacramentos têm, independentemente de nossa vontade.
Colocar a vontade da pessoa como condição para a validade de um Sacramento é, simplesmente, negar a livre ação do Espírito Santo. Será que Ele (E. S.) está limitado à minha vontade de aceitá-Lo?
Esse é o problema de fundo dessa visão antropocêntrica: o homem limita a ação de Deus.
Entretanto, a Verdade é que os Sacramentos existem e são válidos independentemente de nossa aceitação/vontade. Queiramos ou não, no Batismo, o Espírito Santo age naquela pessoa e, querendo ou não, o Pão e o Vinho se transformam em Corpo e Sangue, independentemente de nós acreditarmos ou não...
Na Paz de Cristo!
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# Paulo Carvalho 18-04-2018 21:17
Sidnei,

Não sei quanto à obrigatoriedade, mas, todo pai/mãe quer o melhor para seu filho, logo, deve batizá-lo quando bebê ainda...O Papa Francisco tocou nesse assunto em uma homilia domingo passado. Ele afirmou que o batismo promove a infusão do Espírito Santo na criança, mesmo que ela não saiba nada acerca dos compromissos do batismo. Então, quanto mais cedo se recebe o batismo, mais cedo se conta com essa presença real do Espírito Santo em sua vida...Esperar para depois, seria, no mínimo, deixar de receber essa Graça.
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