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Terça, 25 Outubro 2016 17:25

Hitchcock e o segredo de Confissão - "A Tortura do Silêncio" no Catecine

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Todos devem saber que “roliúdi” hoje em dia é fortemente anticlerical. Podemos atestar isto diante da incensação de filmes nem tão bons assim, mas que falam mal da Igreja ou levantam dúvidas a respeito dela – o caso mais recente e mais ilustrativo disto é o filme Spotlight. Só que nem sempre foi assim. Filmes geniais e que lidavam com os temas cristãos (tais como O Bom Pastor, Os Sinos de Santa Maria, A Canção de Bernadette e Meninos Não Choram) ganhavam caminhões de Óscares e são ainda hoje clássicos absolutos.

O silêncio sacramental do sacerdote em relação aos pecados ouvidos em confissão, inclusive, foi o tema de fundo de um dos melhores filmes de suspense de todos os tempos, dirigido com brilhantismo pelo mestre dos mestres nesta seara: Alfred Hitchcock. Trata-se do seminal A Tortura do Silêncio (no original, I Confess).

É a história do zelador da Igreja de St. Marie, em Quebec, no Canadá francês: Otto Kellar, um imigrante alemão do pós-guerra. Ele se sentia frustrado e oprimido; sua esposa Emma trabalhava até a exaustão, e ambos tinham uma vida muito sacrificada. Desesperado, Otto cometeu um crime horrendo. Tomado pela culpa e pelo desespero, confessou seu crime ao padre Michael Logan – uma interpretação minimalista e quase perfeita de Montgomery Clift.

Inoportunamente, ficamos sabendo aqui que o padre Logan também possuía uma ligação “perigosa” com a vítima de Otto, o que acabou por colocá-lo no radar da polícia de Quebec.

padre_logan

A força da interpretação de Clift neste filme está em sua cara de pedra. À primeira vista, suas feições inabaláveis podem dar a impressão de frieza e distanciamento psicótico. Mas toda a condução do ambiente, a opressividade da situação deslindada pelo roteiro, assomada à responsabilidade sacerdotal nunca antes descrita nas telas como neste filme, exigem que o padre Logan assim aja.

Mais do que todos à sua volta, o padre Logan sabe que as consequências que seus atos podem ter, não tanto para os homens, mas para sua alma imortal e para a sua fidelidade aos mandamentos da Santa Igreja, que ele jurou defender e respeitar. Para quem não sabe, se um sacerdote revelar um segredo de confissão, ele é excomungado.

Hitchcock constrói o suspense tratando com muita dignidade e respeito os santos sacramentos e a fé. Como fiel católico, para mim, o principal aspecto do filme foi ver como podemos utilizar o sacramento como válvula de escape para a culpa – e até como uma forma de envolver o sacerdote em nossos crimes, o que é bem o caso aqui. Isto ocorre quando a confissão não é acompanhada pelo real arrependimento e entrega de nossas culpas aos desígnios de Jesus Cristo. Tal confissão apenas vai alimentar o pior inimigo do confessado: o remorso.

O padre Logan sofre o preço secular dos pecados de Otto, mas o remorso e a loucura cobram o seu preço ao velho zelador, que vai ficando mais e mais paranoico e mentiroso. Ele desconfia de quem nunca lhe deu motivos para desconfiança, e sua loucura fica a ponto de explodir e machucar os que estão mais próximos dele.

Com a força que vem da fé, o padre Logan tudo enfrenta com serenidade, apesar de ser atacado com as mais insidiosas acusações que podem ser feitas a um sacerdote. No tribunal, nada importa ao Estado acusador, apenas que exista um culpado e uma condenação.

O filme foi feito de um roteiro adaptado, de autoria a quatro mãos por George Tabori e Willian Archibald. Era originalmente uma peça teatral de Paul Anthelme, chamada Nos Deux Conscience, que tem um final diferente e muito mais trágico do que o do filme. O fim foi alterado para satisfazer o senso de justiça anglo-saxão, mas isso não compromete a experiência nem os valores que o filme quer nos mostrar.

Completa o pacote a lindíssima fotografia em preto e branco de George Burks, que valoriza ainda mais as locações da belíssima Quebec.

Um filme necessário, belíssimo e sóbrio. Um dos melhores suspenses do mestre dos mestres!

P.S.: Uma coisa que nem todos sabem. A diferença entre suspense e mistério. Suspense: você sabe quem é o culpado, o que ele fez e como fez, quem nunca sabe disso são as personagens do filme. No suspense o espectador é um observador privilegiado. Mistério: no mistério o espectador nunca sabe de nada, ele está sempre às cegas e são as personagens que sabem o que está de fato ocorrendo. As dinâmicas de ambos os gêneros são antagônicas. Na prática isso quer dizer que é muito mais fácil dar spoiller de filme de suspense do que de mistério (você estraga o último).

Fiquem com Deus e até a próxima.

Ficha Técnica:

Gênero: Suspense

Direção: Alfred Hitchcock

Roteiro: George Tabori, William Archibald

Elenco: Anne Baxter, Brian Aherne, Charles Andre, Dolly Haas, Karl Malden, Montgomery Clift, O.E. Hasse, Roger Dann

Fotografia: Robert Burks

Trilha Sonora: Dimitri Tiomkin

Duração: 95 min.

Ano: 1953

*****

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801 Domingo, 23 Abril 2017 22:56

Comentários   

0 # Bráulio 10-07-2017 19:33
Olá povo de Deus!
A paz de cristo a todos!

Gostaria que fizessem uma análise do filme Spotlight.
Estranhamente percebi que não comentaram nada desse título que inclusive ganhou Oscar de melhor filme.

Acredito que não é só porque um filme critica a nossa igreja que devemos ignorá-lo ou fazer vista grossa com o mesmo. Toda crítica é válida, desde que seja concreta.

Amém? Amém.
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0 # João Pedro Strabelli 04-11-2016 09:55
Mesmo não sendo muito ligado a filmes, vai aqui uma pequena contribuiçãozinha pra trolar alguns filmes. Ou trolar a intenção de alguns, não sei bem qual é o caso. Que a indústria de entretenimento não é católica e nem cristã eu estou cansado de saber. Mas Jesus, numa parábola, disse que os homens são mais espertos em seus negócios do que os filhos de Deus. Então, vamos lá. Não sei com que intenção fizeram estes desenhos, mas tem como encontrar algumas metáforas legais. Orthon e o mundo dos quem O simpático elefante ouve uma voz dentro de uma flor e passa a defender aquela vida que ele não vê de todas as formas. Quer filme mais anti-aborto do que este? Ainda mais o refrão dele: “Uma pessoa é uma pessoa não importa o tamanho”. Jack Frost Tá, tem um monte de figuras meio mitológicas e trata a morte do Jack de uma forma meio estranha. Mas vamos fazer uma análise um pouco mais aprofundada da história. É um mundo em que um ser mal, mas com uma aparência bastante moderna e elegante, quer acabar com a crença em tudo o que não pode ser visto. Jack precisa descobrir sua essência, ou seja, aquilo que está mais profundamente em seu íntimo. E descobre a alegria. O homem areia não fala nada, mas tem um poder enorme e age quando é aceito. O Papai Noel é mostrado não como um velhinho que não dá conta de nada mas como um homem forte, decidido e sábio. É ele quem faz Jack encontrar seu caminho. A gente tem que torcer um pouquinho a interpretação, mas este filme é religioso e sobre a fé no que não pode ser visto. Shreck e Fiona Existe casal mais amável do que este? E não é só pelo esculacho que faz com todos os contos de fadas que encontra pela frente, não. A Fiona desiste de ser bonitinha e princesa pra morar, literalmente, com um ogro. Shreck precisa evoluir, aprender a conviver, se entender com a família dela e, dificuldade, largar de fazer tudo o que gosto em prol da família. (Uma observação: a Fiona é muito mais legal verdinha)
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0 # João Pedro Strabelli 27-10-2016 18:02
Sobre isso de o mundo ser anti-católico, ano passado eu tomei uma decisão: quer vender pra mim na época do Natal? Tenha símbolos cristãos em sua loja. Tem gente que não tem porque não é cristão, tem gente que não tem porque é laico, tem gente que não porque segue a moda, te gente que não tem porque não tem; enfim, isso é problema deles. Mas, para vender para mim, ou vai ser do jeito que este cliente aqui quer, ou vou procurar outra loja. Como já disse uma vez, o cara pode querer clientes laicos, ateus, politicamente corretos, alienados, drogados e a maioria dos comerciantes se adequa a cada um eles para vender. Nada mais justo do que ter que se adequar a mim para vender para… mim. Quanto aos outros, é problema deles. Ah, vale para filmes, músicas, correntes no whatsapp… Já deixei de assistir a alguns filmes por estes motivos. Sei que não é isso que vai mudar o mundo, mas não tenho esta pretensão. Mas é estranho que tem gente que não compre em lojas só pelo time de futebol do dono (sim, já vi coisas do tipo), mas basta ser católico para relevar tudo. Decidi ser eu mesmo. Quer me vender? Ótimo, conquiste este cliente.
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0 # Ana Cássia 28-10-2016 11:11
Sabe que na minha cidade esse tipo de postura já deu resultado. Aqui, Santa Maria/RS, temos um shopping grande que está há uns 6 anos de pleno funcionamento. Então, a decoração de natal desse shopping ainda soa como novidade pra muita gente.... há uns anos atrás, uma amiga estava passeando no local na época natalina e, ao não encontrar nenhum presépio, foi questionar a administração. Depois disso, sempre há um presépio no hall de entrada :)
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0 # Padre Orlando Henriques 27-10-2016 22:22
Boa! Claro que uma pessoa só não muda nada, mas se fizéssemos todos assim... No entanto, mesmo que não consigamos criar um "movimento" que faça "mossa", continua a ser interessante essa atitude de «se me quer como cliente tem que se adequar a mim, os outros é problemas deles». Mesmo que não se tenha sequer a intenção de "mudar o mundo", só a atitude em si já é fascinante. Gostei!
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0 # Emanuel 26-10-2016 17:58
Hitchcock foi um grande mestre ! Esse filme é realmente genial.Tive sorte do meu pai gostar de filmes antigos.Lembrando que Hitchcock foi um católico devoto. Bem, Hollywood hoje em dia é realmente muito anti-católica. O ultimo filme sobre a Igreja que eu gostei , era inteiramente fictício , e o Padre estava matando vampiros. ... Bem, Hollywood não é a única , de qualquer forma. Praticamente qualquer mídia que não seja ligada diretamente a Igreja tem seu momentos . Quanto aos Estado Unidos , Hillary Clinton chamou os católicos de ''severly backwards''. "Severamente atrasados''.
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0 # Sidnei 26-10-2016 20:30
Pois é Emanuel, no passado Hollywood fazia filmes que respeitavam a fé católica, hoje, só fazem filmes que atacam ela, as mais recentes: Spotlight - Segredos Revelados; Inferno - mais um filme baseado nas obras de Dan Brown e se não bastasse filme, entram agora seriado como o The Young Pope, que conta a estoria de uma papa sob o título de Pio XIII, e que será um Papa nem um pouco santo. Ou seja, todo pau para bater na Igreja Católica é pouca, deviam os católicos que tivessem vergonha na cara boicotar todas estas obras, mas, como os católicos são desunidos, e muitos não estão nem aí em ver gente batendo na Igreja, isto quando não ajudam a bater nela. Quanto a Hillary, tenho para mim que tano ela quanto o Donald Trunp, são dois verdadeiros representantes do diabo.
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0 # Leonardo Paes 25-10-2016 19:30
Padre Lodi condenado pelo STJ a pagar R$ 60.000,00(com juros) por impedir assassinato(aka aborto) sancionado pelo Estado: http://g1.globo.com/goias/noticia/2016/10/stj-condena-padre-por-impedir-mulher-de-fazer-aborto-em-goias.html
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0 # João Pedro Strabelli 25-10-2016 17:51
Sou muito mais ligado á musica do que a filmes, mas sempre tive a sensação que toda obra de arte que guarda em si a religiosidade, é sempre melhor e mais duradoura. Grandes obras de arte são assim. Não precisa ser necessariamente uma obra sobre religião, e menos ainda moralista e muito menos ainda propaganda, que aí costuma acontecer de o resultado ser bem pior do que a boa intenção. Mas aquele sentimento de Deus que está arraigado lá no nosso íntimo. É algo que não tem como escapar, Deus está nas pessoas e elas, em seu íntimo, percebem. Hoje muita obra é discretamente escondida porque falar de religião pega mal para o sujeito que quer posar de atual ou moderno ou, pior ainda, aquele que se diz consciente só pra seguir modinha. Mas o tempo passa, o mundo dá voltas e algumas obras ficam e outras vão para o mundo do esquecimento. As que tem uma centelha de Deus em si, ficam. Afinal, como explicar que um marmanjo que não sabe nem onde fica a Igreja e se orgulha de nunca ter pisado numa se emocionar quando ouve uma interpretação da Ave Maria?
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