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Segunda, 26 Março 2018 17:00

Catelivros - E se a sua vocação fosse escrever?

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Você! Você mesmo!

Você conhece Flannery O’Connor? Ela venceu muitos obstáculos e se tornou uma escritora incrível. E um dos fatores do seu sucesso foi encarar o dom de escrever como uma verdadeira vocação. E você? Já pensou que esse pode ser o seu chamado também?

É impressionante a quantidade de gente que trabalha ou estuda sem fazer o que gosta, querendo apenas “ganhar dinheiro” (e isso é bem discutível, porque hoje nada dá dinheiro...). Muitos além de não encherem o porquinho de dinheiro, acabam enchendo a gaveta com montes de contos autorais. Mas encaram a escrita como hobby, não como trabalho ou vocação...

Se você é um desses, talvez não entenda como “Jogos Vorazes” vendeu tanto e “Dragões de Éter” ganhou uma nova edição. E mais! Talvez esteja certo de que as trinta páginas que você conseguiu escrever poderiam ser um livro muito melhor do que esses.

Se você é assim ou conhece alguém assim, dê uma olhada nesse trecho da carta que São João Paulo II escreveu aos artistas:

“Quem tiver notado em si mesmo esta espécie de centelha divina que é a vocação artística — de poeta, escritor, pintor, escultor, arquiteto, músico, ator... —, adverte ao mesmo tempo a obrigação de não desperdiçar este talento, mas de o desenvolver para colocá-lo ao serviço do próximo e de toda a humanidade”.

Olhe bem o que esse Papa santo coloca como uma obrigação: não desperdiçar esse talento! Você lembra como Nosso Senhor disse que seria tratado o servo que enterrasse o talento? Pois é. Nada legal. Escritor católico, se você tem vocação, trate ela com seriedade!

E como o exemplo arrasta mais do que as palavras, eu vou contar uma história. A história de uma católica que encarou a escrita como vocação.

Era uma vez uma jovem norte-americana que, com muito esforço e dedicação, deixou sua casa na zona rural para se dedicar ao seu sonho: escrever.

Ela foi aprovada em uma escola literária de prestígio, após concluir um mestrado em belas artes, e foi para NY. Lá, conviveu com os grandes escritores da época, em um ambiente de efervescência cultural, e foi tratada como uma igual.

Além disso, revisava seu primeiro romance, com vistas à publicação. Que alegria!

Mas tudo isso mudou quando ela passou mal e foi diagnosticada com lúpus. A doença incurável que matou seu pai, dez anos antes.

De uma hora para outra, tudo desabou.

Por muito menos, não poucos jogam tudo para o alto e se revoltam ou se entregam à depressão. Seria razoável supor que a jovem abandonou sua carreira.

Mas essa é a história de Flannery O’Connor, uma das maiores escritoras do século XX. E ela era profundamente católica.

Flannery abraçou sua cruz e seguiu o Cristo. Retornou a fazenda de sua mãe (e seus 44 pavões. Sim, bastante exótico) e, naquele retiro interiorano, longe das grandes mentes da cidade, viveu uma rotina de religiosa. Mas de religiosa escritora.

Começava seus dias cedo, com a missa. Depois de um café da manhã simples, escrevia sem parar por três horas, diariamente. Após o almoço, recebia visitantes, respondia correspondência, lia (e um escritor deve sempre estar lendo alguma coisa), e... alimentava os pavões (todo mundo precisa contribuir com a fazenda da família). Após a janta, ela lia um pouco mais, fazia suas orações da noite e meditava questões da Suma Teológica (sim, a de Santo Tomás!), até às 21h.

E no outro dia, tudo de novo. Foi sua rotina ao longo dos 14 anos em que combateu o lúpus. Morreu cedo, aos 39, e muitos dizem que só não ficou entre os grandes nomes da literatura universal por ter nos deixado em tão pouco tempo.

Nesse tempo, levou a sério as palavras de São João Paulo II:

“A vocação diferente de cada artista, ao mesmo tempo que determina o âmbito do seu serviço, indica também as tarefas que deve assumir, o trabalho duro a que tem de sujeitar-se, a responsabilidade que deve enfrentar”.

Vendo a vida de uma escritora piedosa, você até pode até ter se animado para continuar aquele livro que você enrola há 5 anos para dar continuidade, mas talvez esteja pensando: “Daniel, eu não sei escrever histórias bíblicas e vidas de santos. Só gosto de falar de dragão, vampiro e cabeça decepada. Não seria um bom escritor católico”.

Primeiramente: tamo junto!

Em segundo lugar: o exemplo de Flannery O’Connor é ótimo justamente por isso. Ela, como Tolkien, Chesterton e tantos outros escritores católicos, estava interessada em ser uma boa escritora, e não em escrever contos piedosos (o que é justo e necessário, mas não era a vocação dela).

Ela queria escrever boas histórias que atingissem ao público, e seus dois romances e mais de 80 contos ficaram famosos pelo uso do grotesco e do violento. E não há nada de errado nisso, pois são histórias que, indiretamente (e por vezes, explicitamente) mostram um mundo marcado pelo pecado que necessita da misericórdia divina.

Se você alimenta sua alma com a Palavra e os sacramentos, medita os mistérios da fé e busca dar testemunho, necessariamente sua arte vai refletir isso. Ainda que fale de apocalipse zumbi, máfia ou impérios intergalácticos.

Uma vez perguntaram a Flannery porque ela escrevia. Sua resposta? “Porque sou boa nisso”.

Ela não estava se exibindo. Estava mostrando um catolicismo consciente que reconhece que todos os dons vêm de Deus. Precisamos usar isso para a maior glória Dele.

Não enterremos nossos talentos.

1270 Sexta, 30 Março 2018 04:34

Comentários   

# Geraldo 10-04-2018 11:15
E, Daniel, tenho buscado fazer alguma coisa no campo da literatura, tentando efetivar isso que a Flanery propõe, pois creio que tudo o que é autenticamente humano prepara os caminhos do Senhor e Cristo devolve o homem a si mesmo, o ajuda a olhar com sinceridade para a sua "experiência elementar" (Giussani), pois ali pulsa aquele desejo para o qual "o oceano todo é uma gota apenas" (Adélia) e que nos faz reconhecer o Senhor quando ele se manifesta.
Se você tiver um tempinho para espiar minhas escrevinhações públicas vez por outra fico muito grato, sobretudo se puder me dar algum retorno crítico, pois me identifico muito com sua reflexão onde encontro muita luz. Algumas delas estão aqui: https://sesamoamagiadapalavra.wordpress.com
No próprio blog estão meus endereços, caso você possa me enviar alguma crítica.
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# Geraldo 10-04-2018 10:55
Olá Daniel! Mais uma vez, muito obrigado por esses mais que oportunos posts que você tem feito, trazendo tanta luz sobre um campo onde a nossa presença é tão necessária. E Jesus foi o pioneiro nos abrindo caminhos: basta a ver a densidade de uma Parábola do Filho Pródigo e tantas outras criações imaginativas que ele bolou para nos comunicar a profundidade do seu próprio SER.
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# Apologeta Anderson 28-03-2018 21:41
Sabe, catequista, é bom escrever, mas qual reconhecimento se pode tirar de um público que sua grande maioria não gosta de ler, como o público católico?

Tenho dois livros já publicados, que criei para ajudar tanto em matéria de conhecimento quanto para ajudar a estruturar melhor o meu canal no youtube.

E o que ganhei com isso, o título de louco...
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# Flavia Lima 28-03-2018 17:03
Que rotina linda... Estou resgatando umas vinte páginas de uma história que escrevi ano passado e larguei de mão por n motivos (tcc, estágio, preguiça) e pretendo continuar até o final. Ainda preciso vencer o perfeccionismo para avançar nessa história e seguir em frente; sempre imaginei os atos de desenhar e escrever como "dons pequenos" ao invés de ser uma vocação a ser seguida...
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# Natalia 28-03-2018 14:06
Acho que levarei essa questão ao meu diretor espiritual. Eu sou uma “poia” para falar, me enrolo muito e não desenvolvo muito bem. Mas quando começo a escrever, a mal chega a doer.

Na verdade, não escrevo contos, normalmente são “insights”, “filosofadas” após uma missa, ou leitura, ou conversa, mas sempre algo relacionado a doutrina.

Vou pensar mais sobre isso, rsrs
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# Vinícius 27-03-2018 21:29
Sabe Daniel, eu tinha um hábito de escrever poemas quando era adolescente. Ainda tenho eles num caderno, alguns diziam que eu deveria dar continuidade, tentar publicar eles, alguns são de temática religiosa, mas nunca toquei adiante porque eu achava eles tão simples, nem cheguei a pensar que era um talento meu (ainda tenho dúvidas se realmente seja). Porém, eu estive pensando em tentar voltar, estava planejando em compôr um poema com o nome de "O Sol Voltou", para celebrar o domingo da Páscoa. Quem sabe eu não retomo esse hábito?
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# Daniel 28-03-2018 14:58
Vinícius, você gosta de escrever os poemas?

Se sim, e se há quem diga que você leva jeito, vale continuar se aprimorando. Lendo boa poesia, aprendendo mais sobre a poética, ouvindo as críticas, conversando com quem entende do assunto, e claro, escrevendo.

Escute a opinião dos demais e vá praticando, se é algo que você realmente gosta.
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# Alex Hoffmann 27-03-2018 21:28
Não. Minha vocação é bem mais modesta, aliás, quase insignificante, não é pra mim esse negócio de escrever. Tanto assim que meia dúzia de palavras escritas necessita revisão pra saber o que eu quero dizer.
Meu negócio é fazer leitura bíblica na Missa e de vez em quando salmodiar, isto até que consigo, o resto todo não é pra mim.
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# Paulo Ricardo Costa 27-03-2018 17:25
Os livros de Flannery O'Connery são, pra variar, raros e caros e português hoje em dia. Mas, para os menos abastados e que ficaram curiosos e ansiosos para ler os livros dela, há uma coletânea com uma boa tradução PARA O ESPANHOL, disponível na amazon. Para kindle, sai por módicos sete temeres.
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# Daniel 28-03-2018 14:56
Estou lendo "Sangue Sábio" que encontrei na biblioteca aqui de Jundiaí.

Que mulher. Entendia da alma humana.
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