Publicidade
Quarta, 31 Maio 2017 13:50

A Pequena Vendedora de Fósforos

Postado por

"Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Fil 1,21), diz São Paulo. O apóstolo dos gentios confessa que partir para junto do Senhor seria "imensamente melhor", apesar dele amar a vida, pois estando vivo pode servir aos irmãos. Como eu estou diante dessa Palavra? Eu me identifico com São Paulo, ou estou a mil anos luz desse desprendimento?

Fiquei muito sensibilizada pela análise que apresento a vocês abaixo, sobre um conto de Hans Christian Andersen. Muitas vezes gastamos a maior parte do nosso tempo buscando garantir a felicidade - ou ao menos a estabilidade e segurança - nesta vida aqui, quando Cristo e toda a Bíblia nos ensinam que essa vida passa logo, que os servos de Cristo são perseguidos e sofrem muito neste mundo, e que o nosso verdadeiro lar não é aqui.

*****

A PEQUENA VENDEDORA DE FÓSFOROS

por Rodrigo Figueiroa

Em uma fria véspera de Ano Novo, uma menina pobre, jovem, tenta vender fósforos na rua. Ela já está tremendo de frio e hipotermia precoce, e ela está andando descalça tendo perdido seus chinelos. Ainda assim, ela tem muito medo de ir para casa, porque seu pai vai espancá-la por não vender nenhum fósforo. A menina toma o abrigo em um recanto de um beco e senta-se cabisbaixa.

A menina acende os fósforos para aquecer-se. Em seu brilho, ela tem várias visões encantadoras, começando com um fogão, depois uma festa de ceia onde o ganso assado quase salta para ela, e então uma árvore de Natal maior do que a da casa de um comerciante rico. Logo ela percebe que as luzes da árvore são na realidade as estrelas.

A menina olha para o céu e vê uma estrela cadente; Ela então se lembra de sua avó falecida dizendo que tal estrela cadente significa que alguém está morrendo e vai para o Céu. Quando ela acende o próximo fósforo, ela vê uma visão de sua avó, a única pessoa que a tratou com amor e bondade. Para manter a visão de sua avó viva por tanto tempo quanto puder, a menina acende todo o pacote de fósforos de uma só vez.

Depois de ficar sem fósforos, a criança morre e sua avó leva seu espírito para o céu. Na manhã seguinte, os transeuntes encontram a menina morta no recanto, congelada com um sorriso no rosto, e o monte de fósforos queimados ao lado dela. Eles sentem piedade por ela, embora não tenham demonstrado bondade com ela antes de sua morte. Eles não têm como saber sobre as visões maravilhosas que ela teve antes de sua morte ou como gloriosamente ela e sua avó estão agora celebrando o Ano Novo no Céu.

Esse pequeno conto de 1845 foi escrito por Hans Christian Andersen, o criador de A Pequena Sereia e O Patinho Feio. Durante o início do séc 20, na Revolução Industrial, as pessoas não ligavam para os pobres. Com as "muitas oportunidades" da indústria (como trabalhar em minas de carvão), a pobreza era considerada um traço de personalidade, a pessoa era pobre porque não "trabalhava o bastante". E mendigar era ilegal no país e época de Andersen, então os pobres vendiam fósforos e outras quinquilharias na rua como recurso ou uma forma de mendigagem "justa".

Abuso infantil também era comum nessa época. As alucinações da menina são sinais da hipotermia. Mas a aparição de sua vó é ambígua. Pode ou não ser uma alucinação como as outras. De toda forma, a aparição de um ente falecido é um sinal da proximidade da morte em muitos casos de "quase-morte". Nesse caso, é importante notar que Hans Christian Andersen achava que esse conto teve um final feliz. Muitas pessoas não entendem ou se sentem extremamente desconfortáveis com esse pequeno conto, porque ele parece triste e sem esperança. Isso mostra o contraste de como nosso tempo é sem fé.

Pois esse conto trata não apenas da dura realidade, mas da fé. O final da pequena vendedora de fósforos é para todas as pessoas de fé um final feliz, junto de seu único ente amado e de Deus. Para nós, que achamos a vida a última bolacha do pacote, mesmo quando nos consideramos pessoas de fé, só acreditamos nessa fé quando ela serve à vida.

Contraste sua fé com a de Andersen e de seus contemporâneos, e com a fé da pequena vendedora de fósforos, e verá que a sua talvez não seja tão forte. Todas as esperanças da menina eram em bens dessa vida que temos por "garantido" e que ela nunca teve; e morreu sem ter; e no final sua recompensa foi maior do que as que ela esperava. Ainda assim, para nós, isso parece um faz de conta para consolar quem não tem nada. Não parece algo de substância.

Pensar em uma criança morrendo na Véspera de Ano Novo é incômodo, mas acontece todos os anos. Aqueles que têm tudo ignoram uma pessoa que pede por moedas.

Muitas pessoas "perdem a fé em Deus" porque Deus não fez o que elas queriam, não ajudou no que elas acreditam merecer. Esse tipo de pensamento é de alguém que realmente não tem nem nunca teve fé ou compreensão da natureza das coisas espirituais, a partir do princípio de não entender Deus como a causa da Criação, mas como um Papai Noel, que dá presentes aos bonzinhos e castiga os levados.

A nossa era não vê substância no final, porque não tem fé. A fé em nossa era se resume em esperança por coisas boas que possam ser desfrutadas em vida. Mas Andersen nos lembra, como era entendido pela maioria das pessoas em sua época, que a fé deve ser em coisas boas no ESPIRITUAL, e que as coisas da vida, seriam bem menos piores se não ignorássemos ao longo do ano as pequenas vendedoras de fósforos.

O final da vendedora de fósforos foi bom, e essa é a parte que cabe à Deus. A vida dela foi ruim, e essa era a parte que cabia a nós.

9387 Quinta, 01 Junho 2017 15:19

Comentários   

0 # Daniela 21-06-2017 22:17
Excelente como sempre... Obrigada !!!
Responder | Responder com citação | Citar
0 # Bruna Lima 16-06-2017 23:18
Lindo post, de muita sensibilidade e reflexão. Lembro de ter lido esse conto algumas vezes quando era criança, e ele sempre me provocou uma mistura de sentimentos. Ficava triste pela situação de miséria e a morte da menina, e ao mesmo tempo feliz por ela ter reencontrado alguém que a amava e ter ido viver bem e contente no Céu. ❤
Responder | Responder com citação | Citar
0 # Eduardo Araújo 09-06-2017 19:51
Não digo triste, mas o conto é melancólico. Podemos, inclusive, traçar um paralelo com O Patinho Feio, com desenlace feliz, mas não sem uma prévia vida de tormentos.
De todo modo, o mais interessante é a mensagem de fé, de esperança, em tão pequena amostra de um gênio da literatura infantil.
Responder | Responder com citação | Citar
0 # Pedro Vinicius do N. 02-06-2017 02:48
Parabéns pelo post!
"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!" Mt 5, 6.

Julgo que o conto pode até ser triste, mesmo assim a lição que ele nos deixa é muito proveitosa. Confesso que fiquei bastante comovido com isso, e a única coisa que me veio à cabeça enquanto eu lia é a Parábola do Bom Samaritano. Eu me pergunto quantas vezes nós agimos como aqueles que sentiram piedade pela Pequena Vendedora de Fósforos, embora não tenham demonstrado bondade com ela antes de sua morte, ou mesmo como o sacerdote e o levita da parábola.

"Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes." Mt 25, 40.

Enfim, que Nosso Senhor Jesus Cristo possa socorrer a todos aqueles que mais sofrem, torço para que eu possa ter contribuído de algum jeito com a reflexão, que um dia todos nós assim como a garotinha do conto, possamos nos juntar a Deus no paraíso.
Responder | Responder com citação | Citar
0 # Andressa Seabra 02-06-2017 01:18
Esse conto é lindo!

Li a primeira vez esse ano, em janeiro, e para mim, o final foi absolutamente sensível e emocionante, claro, que deve ser muito difícil de perceber por aqueles não tem fé em Deus, ou ao menos, em algo transcendente.

A crítica foi muito boa!

Aliás, como é a primeira vez que comento um texto de vocês, o conteúdo do site é muito interessante!

Continue com o trabalho de vocês e que Deus os abençoem!
Responder | Responder com citação | Citar
0 # Karina 01-06-2017 11:00
Me arrepiei pelo último parágrafo.
Responder | Responder com citação | Citar
0 # Luiz Cesar 01-06-2017 03:02
Acredito que você trocou a palavra melhor por menor: Paulo confessa que partir para junto do Senhor seria "imensamente menor",
Responder | Responder com citação | Citar
+1 # Daiane 01-06-2017 02:08
Lindo conto e sábias palavras... Hoje mesmo estava refletindo sobre isso, meditando sobre como lidamos com morte, principalmente de pessoas queridas... Lamentamos muito, não temos fé suficiente para compreender que a morte não é o fim, e pode ser um final feliz para quem se vai.
Somos estrangeiros nessa vida, estamos de passagem, mas, insistimos em perder tempo acumulando bens e nos apegando a coisas, pessoas, e etc. Quando na verdade nada é nosso de fato...
Responder | Responder com citação | Citar
0 # maria José de Meneze 31-05-2017 23:43
De tudo fico com as frases: "O final da vendedora de fósforos foi bom, e essa é a parte que cabe a Deus. A vida dela foi ruim, e essa era a parte que cabia a nós."
Responder | Responder com citação | Citar
0 # Gabriel Godoi 31-05-2017 17:12
Uau! Eu nunca tinha visto esse conto, mas como me tocou!
Li o conto na integra e fiquei ainda mais emocionado.
Como é triste a frieza humana diante da vida e como é espantoso ver que em vida não ligavam para a pequena e agora que partiu todos se espantam, mas O Nosso Deus é realmente aquele que nunca desampara aos pobres.
Texto Fantástico!
Parabéns
Responder | Responder com citação | Citar

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Publicidade
Publicidade