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Terça, 02 Maio 2017 20:24

A Igreja nunca debateu se as mulheres tinham alma. Mas será que certos historiadores têm cérebro?

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Um leitor do nosso blog, estudante do primeiro ano do Ensino Médio, nos perguntou se era verdade que a Igreja Católica no passado debateu a existência da alma nas mulheres. Ele nos enviou a seguinte imagem, do livro de História que integra o seu material didático:

O autor desse delírio é José Arbex Jr. Esse texto foi retirado de um livro seu (Islã, um enigma de nossa época) que defende a tese de que a extrema perseguição e violência sofrida pelas mulheres no mundo islâmico não tem nada a ver com a religião islâmica, mas sim com um “problema de cultura” machista mundial.

Ah, sim... Porque nos EUA até hoje as mulheres não podem dirigir, né? Ih, não, isso é na Arábia Saudita! E no Chile, se uma mulher denuncia um estupro na delegacia, é presa e processada, certo? Ah, não, isso é em Dubai! É, mas tem a Austrália, onde é comum o casamento de meninas menores de 12 anos. Ah, não isso é no Iêmen!

Todas essas desgraças (e muitas outras), impensáveis em países de raiz cristã, são rotina em países de maioria muçulmana!

Mas para embasar sua tese do mundo da fantasia, Arbex busca demonstrar como o judaísmo e o cristianismo estão repletos de episódios de extrema injustiça contra as mulheres. Como não há nos dias de hoje algo que sequer se compare à situação surreal dos direitos da mulher em países muçulmanos, ele tenta, num ato de desespero, recorrer a um tempo anterior à Idade Média, quando vivia Maomé.

E, adivinhem? Arbex tombou! Tombou o cérebro dos que confiam em seu texto.

A Igreja Católica JAMAIS levantou qualquer dúvida sobre as mulheres terem alma. A grande historiadora Régine Pernoud, ao refutar essa calúnia, classificou simplesmente como “tolice” (livro Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram, Capítulo VI).

Porém essa tolice tem uma origem: a distorção do significado de um texto de São Gregório de Tours. O santo conta que no Concílio de Mâcon de 585, um dos sacerdotes presentes defendia a ideia de que o termo “homo” (homem, em latim), não deveria designar genericamente todos os indivíduos humanos, ou seja, não deveria ser usado para as mulheres.

Por exemplo, quando se diz: “O homem precisa encontrar o sentido da vida”, estamos usando o termo “homem” para designar a mulher também. O tal bispo não achava isso certo. Como vemos, a discussão girava em torno de uma questão linguística, e nada tinha a ver com dizer que a mulher não era um ser humano ou não tinha alma.

“Houve neste Sínodo um bispo que dizia não poder a mulher chamar-se homem. No entanto deu-se por satisfeito, quando os bispos lhe apresentaram as razões, recordando-lhe o que ensina o livro do Antigo Testamento (...) Graças a estes testemunhos e a vários outros, a questão ficou liquidada e a discussão terminou”.

- São Gregório de Tours. "Histoire des Francs" (História dos Francos), capítulo 9

Como se vê, os demais bispos rebateram a ideia do bispo que levantou a questão, ele se convenceu, e parou por aí. Nem sabemos se esse debate realmente aconteceu, pois São Gregório não participou do tal Concílio e escreveu só o que ouviu falar. Mas se aconteceu, não teve importância alguma, deve ter sido um papo de corredor, pois não foi citado em nenhum dos documentos do Concílio.

PROTESTANTES, PAIS DESSA MENTIRADA TODA

Os difamadores mais profissionais do mundo – os protestantes – não perderam a oportunidade de usar esse episódio irrelevante para atacar o catolicismo.

No final do século XVI, um luterano chamado Lucas Osiander (O Velho) escreveu, comentado o episódio narrado por São Gregório de Tours:

"Além disso, confundido neste sínodo o bispo, que afirmou que a mulher não pode ser chamada de humano (non posse mulierem DICI hominem). Este é um problema sério e bem digno de ser discutido em um sínodo. Eu teria colocado este bispo para cuidar de porcos. Porque, se sua mãe não era um ser humano, ele havia aparentemente nascido de uma porca."

- Epitomes Historiae ecclesiasticae, Centuria sexta, l. 4, ch. 15, Tübingen, 1598, p. 285

Bem... aqui para nós parece bem evidente quem é o porco dessa história!

Cerca de 100 anos depois, a lorota ganha novo ímpeto. Em 1697, Pierre Bayle, um célebre estudioso calvinista, escreveu em sua obra “Dictionnaire historique et critique. Après avoir parlé de la Disputatio nova”, ao citar outro autor protestante (Johannes Leyser) que havia citado Osiander: "O que eu acho mais estranho é ver que em um concílio [Mâcon] se tenha seriamente questionado se as mulheres eram um ser humano, e que isso se decidiu somente depois de um longo exame".

Realmente, criatura, era mesmo estranho... porque era mentira!

A partir de então, nos séculos seguintes, esse preconceito seria passado adiante por muitos outros escritores e poetas influentes, como Victor Hugo.

Só mais recentemente, o respeitado historiador Jacques Dalarun denunciou a cagada: “Somente o emprego abusivo de uma alusão de Gregório de Tours († v. 594) ao concílio de Mâcon de 585 poderia fazer crer que o clero discutiu seriamente se as mulheres tinham alma” (l'Histoire des femmes en Occident, vol. II, Le Moyen Âge).

O mais louco disso tudo é que os mesmos protestantes que inventaram que a Igreja no passado questionou se as mulheres tinham alma são os mesmos que nos acusam de "idolatrar" a Mãe de Deus, a Virgem Maria. 

6905 Quarta, 03 Maio 2017 14:16

Comentários   

0 # Solange 12-06-2017 15:44
“Não foi senão no século XV que a Igreja admitiu que a mulher tinha alma”, afirmava candidamente, um dia no rádio, não sei que romancista certamente cheio de boas intenções, mas cuja informação apresentava algumas lacunas!

Assim, durante séculos, batizou-se, confessou-se e ministrou-se a Eucaristia a seres sem alma! Neste caso, por que não aos animais? É estranho que os primeiros mártires honrados como santos tenham sido mulheres e não homens. Santa Agnes, Santa Cecília, Santa Ágata e tantas outras. É verdadeiramente triste que Santa Blandina ou Santa Genoveva tenham sido desprovidas de uma alma imortal."

Regine Pernoud no livro "O Mito da Idade Média"
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0 # Paulo Eduardo 29-05-2017 20:57
Como historiador, sinto vergonha de tantos colegas de formação que em nome de representações políticas não se envergonham de difundir inverdades.

Afirmar em um livro didático que a Igreja discutia a existência de alma nas mulheres depõe muito contra a sanidade do autor.
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-1 # Alex Hoffmann 07-05-2017 23:05
"Mas nos EUA as mulheres sabem dirigir e tem este direito porque foi colonizado por protestantes, e é rico por causa dos protestantes. Já o Brasil e a América Latina, por ter sido colonizada por católicos tá na porcaria que tá. O machismo é mais forte sempre nos países católicos. E olha que nem menciono a escravidão, pois a Igreja Católica disse que os negros não tem alma também."

Creio que faltou esta parte na explanação do dito professor.
Isto aí está igual a historinha aqui em Santa Catarina do caso aluna de mestrando versus professora de mestrado da UDESC.
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0 # Pedro Vinicius 05-05-2017 19:36
Parabéns pelo post! Sem dúvida foi muito esclarecedor!
Não dá para acreditar que um sujeito disse uma coisa dessas! Ou ele é muito mal-informado ou é mal-intencionado (é mais provável que seja isso mesmo!).
O que é pior de tudo é que as pessoas preferem acreditar nessa asneira, do que em estudiosos competentes e respeitados.
Não sei onde vamos parar com tanta desinformação seletiva que andam espalhando por aí, especialmente a respeito da Igreja Católica!
E esse sujeito ainda defende a tese de que a extrema perseguição e violência sofrida pelas mulheres no mundo islâmico não tem nada a ver com a religião islâmica, mas sim com um “problema de cultura” machista mundial.
Isso é a maior bobagem de todas! Isso é uma verdadeira palhaçada!
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0 # Fernanda Viana 05-05-2017 02:32
Boa noite, pessoal! Aproveitando o ensejo, tem como quebrar um galho pra nós aqui e nos responder se é verdade que a primeira Bíblia em português foi traduzida pelo João Ferreira de Almeida mesmo, ou mesmo qual é a marmota dessa história toda de que "a população só pode ter acesso à Bíblia por causa do Lutero"? Porque já tá ficando trash discutir isso...
Grata,
Uma católica cansada de tanta abobrinha que não serve nem pra suflê
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0 # Stéphanie 04-05-2017 19:01
Nossa, essa eu nunca tinha escutado. Olha, eu me lembro que quando estudei Revolução religiosa na escola, tive professoras protestantes, mas elas nunca chegaram a tanto. Aliás tive até uma professora petista que nunca tentou converter a gente, outros tempos...
Mas muito bom saber de onde surgiu esse 171, se algum dia for confrontada com tal baboseira já sei como fazer a lorota reduzir-se a pó.
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+2 # Sidnei 03-05-2017 11:02
Poderiam fazer uma matéria, defendendo a Santo Agostinho, que alguns o acusam de ser machista e de rebaixar as mulheres a um patamar bem abaixo do traseiro de um sapo, como fez um teóloga alemã que atacou sem dó e nem piedade o santo doutro da graça.

Mas a matéria acima foi de suma importância para esclarecer mais uma calúnia vindos dos inimigo da Igreja. Eta ciranda cirandinha dos infernos este: protestantes + iluministas + comunistas + outros istas, que contam mentiras e mais mentiras que o povo vai engolindo como "verdades"
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